Fonte: Instituto Camoes, História da Língua Portuguesa em linha
Pode-se afirmar, com certa margem de segurança, que até meados do século XVIII o multilingüismo generalizado caracteriza o território brasileiro, até certo ponto freiado pelas leis pombalinas de política lingüística dos meados do século XVIII. O multilingüismo perdura: ainda hoje, apesar de a língua portuguesa ser a língua oficial majoritária no Brasil, persistem cerca de 180 línguas indígenas, com a média de 200 falantes por língua, faladas por 300.000 a 500.000 índios (estimativas de 2000), perfazendo 0,2 da população brasileira, que atinge hoje um total de 169.544.443 h, segundo os primeiros resultados do Censo 2000.
Uma certa homogeneidade cultural e lingüística, ao longo do litoral, a partir do Rio Grande do Norte, e também na Bacia do Paraná/Paraguai, tornou possível a gramatização da Língua mais falada na costa do Brasil, título muito adequado da gramática do Pe. José de Anchieta, publicada em 1595. Essa língua estará na base do que no século XVIII veio a se designar de língua geral. Aryon Rodrigues distingue duas línguas gerais:
- – a paulista, de base tupininquim e/ou guarani, que terá sido a língua de intercomunicação entre colonizadores, colonos e índios nas bandeiras para os interiores do Brasil, a partir de São Paulo, no século XVII;
– e a amazônica, de base tupinambá, que, a partir do Maranhão, começou a avançar na colonização da babélica Amazônia, adjetivo recorrente nos escritos do Pe. Antônio Vieira.
Enriquecer-se-á
esse multilingüismo autóctone em contato com o português do colonizador
e com os escravos africanos trazidos para o Brasil, oficialmente a
partir de 1549, mas já solicitados antes. Após a instalação do primeiro
governo geral, em 1549, estabeleceu-se o tráfico regular e estimulou-se a
importação de africanos para o Brasil. Segundo Jorge Couto,
- “nos
finais de Quinhentos, a presença africana (42%) já se estendia a todas
as capitanias, ultrapassando no conjunto, qualquer um dos outros grupos –
Portugueses (30%) e Índios (28%), apresentando um crescimento
espetacular nas capitanias de Pernambuco e Bahia, esta última
sextuplicando seus habitantes negros” (1992: 278).
Teria
o Brasil, ao findar o primeiro século colonial, 101.750 habitantes, dos
quais 42% de africanos. Diante desses dados demográficos se pode
admitir que o forte candidato para a difusão do português geral brasileiro, antecedente histórico do atualmente designado de vernáculo ou português popular,
variante sociolingüística mais generalizada no Brasil, seriam os
africanos e afro-descendentes, e não os indígenas autóctones, já que o Português Brasileiro culto,
próprio hoje, em geral, aos de escolarização mais alta, será o
descendente do Português Europeu ou mais europeizado das elites e dos
segmentos mais altos da sociedade colonial.
Além
das línguas indígenas autóctones e das africanas chegadas com o tráfico
negreiro, que oficialmente se encerra em 1830, completa-se o quadro
geral do multilingüismo no Brasil com a chegada dos emigrantes europeus e
asiáticos, sobretudo a partir do século XIX. Os dados a seguir têm como
fonte o estudo de Lúcio Kreutz – A educação dos imigrantes no Brasil:
- “os
alemães formaram a primeira corrente imigratória, a partir de 1824,
localizando-se, sobretudo, em São Leopoldo no Rio Grande do Sul... Os
italianos vieram a partir da década de 1870 e formaram o contingente
maior: 1.513.151 de imigrantes. No mesmo período vieram 1.462.111
portugueses, 598.802 espanhóis, 188.622 japoneses (a partir de 1908),
123.724 russos, 94.453 austríacos, 79.509 sírio-libaneses, 50.010
poloneses e 349.354 de diversas nacionalidades” (Kreutz 2000: 351).
Segundo este autor, a década mais intensa da imigração, entre 1850 e 1920, foi a de 1890 com 1.200.000 imigrantes. Na sua grande maioria esses novos componentes da sociedade multilingüe, multiétnica, multirracial e pluricultural brasileira se situaram de São Paulo para o Sul.